ah, os loucos

De uns anos para cá, tenho percebido que Alice no País das Maravilhas se tornou uma livro “pop-cult”. Talvez porque sua atmosfera psicodélica muito sirva à “pós-modernidade” (se é que isso existe mesmo). Além do mais, muito se explorou da estética do livro e de suas idéias que ora tem o singelo pensamento de criança, ora parecem ter inspirado a teoria da psicanálise.

Para além disso, enxergo o livro como um tesouro do final da minha infância. Eu comecei a gostar de Alice aos 12 anos. Li uma versão infanto-juvenil do livro e nunca uma história me marcou tanto. Nunca um personagem pareceu estar dentro de mim. Que princesa que nada, desde então Alice virou meu modelo de mulher. Confusa, questionadora, mas sempre educada e com uma curiosidade delicada. Mais do que um modismo, esse virou o meu livro de vida.

E cá estou hoje com uma nova edição dele em mãos, lançada pela Cosac Naify, e pensando: melhor que cheiro do livro novo é quando ele vem acompanhado de idéias que nunca envelhecem.

“- Mas eu não quero ir parar no meio de gente maluca – observou Alice.

– Ah, mas não adianta você querer ou não – disse o Gato. – Nós somos todos loucos por aqui. Eu sou louco. Você é louca.

– E como é que você sabe que sou louca? – perguntou Alice.

– Bem, deve ser – disse o Gato – ou entáo você não teria vindo parar aqui.

olhos redondos

“Presta atenção, Marina. Presta atenção, lembra da água em volta dos peixes, da realidade, lembra da realidade. A gente tenta, mas o mundo não é feito sempre de fantasia, você entende tão bem a fantasia, por que não consegue entender assim a realidade? Não fica apegada às poesias, ou então apega às poesias sabendo que as palavras saem das pessoas e as pessoas mudam, numa hora elas são roxas e na outra amarelas. Marina, não tenta controlar o tempo, não tenta entender o universo, acalma as perguntas do seu coração e fala para ele que você não tem todas as respostas. Fala para ele continuar batendo, que uma hora ele se acostuma com esse pedaço que está faltando.”

Hoje de manhã olhei para minha cachorra e seus olhos redondos pareciam me dizer isso.

o piano da ana

Houve uma época em que eu queria ser bailarina profissional, e tinha uma professora muito brava. Mas ela tinha seus próprios meios de ser brava, ela falava umas coisas más em espanhol que eu não entendia, mas sabia que não podia ser bom. Ela também não me corrigia na aula, e isso para uma bailarina é o mesmo que ser invisível.

Mas tinha aAna. A Ana era a pianista que tocava durante a aula. A Ana sabia mais do que todos os nós de como era a professora e de como eram seus alunos. A Ana me enxergava, e já tinha visto dezenas de outras meninas iguais a mim passar pelas mesmas coisas. Um dia ela tocou uma música no final da aula muito bonita, e pela primeira vez falei com ela, perguntei de quem era, ela respondeu um nome tão complicado… eu cheguei em casa e fiquei tentando repetir o som daquele nome para o google, e ele me respondeu que era “Erik Satie – Gymnopedie”.

Todos os dias em que a Ana percebia que eu estava tendo uma aula difícil, ela tocava essa música. Um jeito musical de me confortar.

Eu tinha me esquecido dessa lembrança. Hoje precisei de conforto, ouvi a música novamente, e senti o piano da Ana me dizendo de novo “calma, tudo passa”…

plim plom plam

primeiro venta um vento de pedaços de flor e cheiro de mato com toque de hortelã, as estrelas de escondem  no canto direito das nuvens, o céu se decide por um laranja-cor-de-noite. Aí aparece devagar e baixo: plim, plom, plam. Plim, plim. Plam plam plam, plom. O plim, veja, traz quase uma preguiça. O plam é o que espalha a melancolia, respirada só para quem o escuta. O plom vem com luzes, que não são idéias, mas piscam forte como se quisessem falar e só tivessem 2 segundos para acontecer. O brum disputa com o plom, tem um jeito ranzinza, quer reclamar, fazer barulho.

depois tudo pára.

e quem respirou a melancolia, fica sem saber onde colocá-la, porque as gotas sobem rápido demais para onde vieram…

conselhos de mãe

Quando eu era criança minha mãe falava um monte de coisa que ela não fala mais. Tipo: não acenda e apague a luz várias vezes pois assim a lâmpada queima, cuidado com as tomadas que elas dão choque, comer demais antes de dormir dá pesadelo.

E não chore quando estiver comendo, que faz mal.

Só que hoje aquele chocolate foi o que deixou as lágrimas mais doces e menos tristes.

(Mas mãe, eu ainda acredito em todo o resto, por isso estou sempre longe de tomadas)

dentro do buraco

(Amor à Flor da Pele – Wai Kar Wong)

– In the old days, if someone had a secret they didn’t want to share… you know what they did? 
– Have no idea.
-They went up a mountain, found a tree, carved a hole in it, and whispered the secret into the hole. Then they covered it with mud. And leave the secret there forever.

 

 

 

todo mundo tem uma palavra que mora dentro. ela se disfarça de silêncio porque é muito calada. ela muda de cor, às vezes fica transparente e a gente esquece que ela está lá, esperando para ser falada. normalmente essas palavras querem ser divididas, mas não se sabe ao certo para quem oferecê-la. essas palavras cresem na gente sem que ninguém saiba.

o mocinho do filme, por exemplo, resolver gaurdá-la dentro do buraco da árvore. 

clarisseando

  “Eu disse a uma amiga:
    — A vida sempre superexigiu de mim.
    Ela disse:
     — Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
    Sim.”

Clarisse Lispector