Toda infância tem um sítio, mesmo que não seja real. Tem um cheiro de mato e um inseto engraçado. Toda infância tem uma textura de brigadeiro e algodão-doce, tem hipopótamos amarelos com bolas roxas e casinhas desenhadas com duas janelas, uma porta e uma chaminé. Às vezes tem um cachorro. Às vezes tem um machucado que deixa marca, ou lembrança do sangue, ou memória da dor. Toda infância tem um primeiro sentimento de culpa, porque falou um palavrão, roubou um chiclete da padaria, brigou com o coleguinha e o fez chorar. Tem uma perda, ou várias. Tem decepção, nem que seja das mais bobas, tipo aquela coxinha que você esperou a semana inteira para comer e caiu no chão.
Toda infância constrói a palavra saudade.
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Ela acorda só com as mãos, que procuram um cobertor mesmo sendo verão. No silêncio típico das 3h16 da manhã, tenta ouvir o ruído da rua, sempre tão barulhenta. Os sons são termômetros e ali parecia tudo muito calmo. O sono já tinha fugido pela fresta da porta, e ela resolveu sair do quarto – não para procurar o sonho que também cassou outros rumos, mas para pegar um pouco de água. A cozinha ainda cheirava à festa e o chão deixava vestígios nas solas dos pés, ainda sujas.
Acostumada à escuridão, voltou para o quarto e ficou olhando pela janela um certo tempo, pensando se alguém ali perto também estava de olhos abertos em pé na janela. Olhou para a cama, mesa, travesseiro, sapato faltando um pedaço do salto. Lembrou de outras festas, lembrou de dançar muito, de ser adolescente. Lembrou de quando não se lembrava de uma época mais animada. Talvez fosse hora de ser mais para dentro, talvez a cabeça não conseguisse jogar confete enquanto trabalha em outros setores.
O sonho errou de porta e entrou correndo pela fechadura, ela mergulhou na cama antes que fosse tarde demais.
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