Houve uma época em que eu queria ser bailarina profissional, e tinha uma professora muito brava. Mas ela tinha seus próprios meios de ser brava, ela falava umas coisas más em espanhol que eu não entendia, mas sabia que não podia ser bom. Ela também não me corrigia na aula, e isso para uma bailarina é o mesmo que ser invisível.
Mas tinha aAna. A Ana era a pianista que tocava durante a aula. A Ana sabia mais do que todos os nós de como era a professora e de como eram seus alunos. A Ana me enxergava, e já tinha visto dezenas de outras meninas iguais a mim passar pelas mesmas coisas. Um dia ela tocou uma música no final da aula muito bonita, e pela primeira vez falei com ela, perguntei de quem era, ela respondeu um nome tão complicado… eu cheguei em casa e fiquei tentando repetir o som daquele nome para o google, e ele me respondeu que era “Erik Satie – Gymnopedie”.
Todos os dias em que a Ana percebia que eu estava tendo uma aula difícil, ela tocava essa música. Um jeito musical de me confortar.
Eu tinha me esquecido dessa lembrança. Hoje precisei de conforto, ouvi a música novamente, e senti o piano da Ana me dizendo de novo “calma, tudo passa”…
a vida, as vezes, tem jeitos bonitos de dizer que tudo vai ficar bem…
o segredo é ficar de olhos abertos…